quarta-feira, 3 de junho de 2015

Qual o futuro da Fifa após a renúncia de Blatter?

  • Há 1 hora
Foto: Reuters
Pouco depois de ser reeleito para quinto mandato na Fifa, Blatter anunciou renúncia, mas deverá ficar até próxima eleição
O anúncio do suíço Joseph Blatter, de que renunciará à presidência da Fifa após a convocação de eleições extraordinárias, surpreendeu o mundo do futebol.
Sua fala ocorreu menos de uma semana depois de ele ter sido reeleito para um quinto mandato à frente da entidade.
A saída de cena de Blatter tem como pano de fundo o escândalo de corrupção na Fifa, revelado após investigações conduzidas pelos Estados Unidos. Segundo a imprensa americana, o suíço estaria sendo investigado por autoridades americanas.
A data das novas eleições ainda não foi decidida, mas acredita-se que ocorra entre dezembro deste ano e março de 2016.
Mas quais as consequências da renúncia e qual o futuro da Fifa? Eis o que pode ser respondido no momento:

Por que Blatter decidiu renunciar agora?

Ninguém sabe ao certo. Blatter foi reeleito presidente da Fifa meros dois dias depois da revelação do esquema de corrupção na entidade pelos Estados Unidos, apesar dos pedidos para que o pleito fosse adiado.
A sensação era de que o suíço conseguiria atravessar a tormenta, assim como muitas que vieram antes.
A revelação, contudo, de uma carta supostamente associando seu braço direito, o francês Jérôme Valcke, a um esquema de propina da ordem de US$ 10 milhões (R$ 33 milhões) na Copa do Mundo de 2010 na África do Sul talvez o tenha o feito concluir que a pressão contra ele era muito alta.
Valcke negou qualquer envolvimento, mas isso pode ter sido a gota d’água para Blatter.
Cresce o rumor de que os dirigentes da Fifa detidos, entre eles o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), fornecerão informações aos investigadores americanos que poderiam levar a mais prisões.
José Maria Marin | Foto: Getty
Executivos detidos poderiam dar informações que levem à prisão de mais pessoas no alto escalão da Fifa
O papel dos países europeus também não pode ser subestimado. As ligas europeias são as mais rentáveis do mundo e reúnem os melhores jogadores do planeta ─ elas responderam por 76,5% dos jogadores que participaram da última Copa, no Brasil.
Em seu discurso de renúncia, Blatter disse sentir que seu mandato não tinha apoio de todo o mundo do futebol, e isso pode tê-lo feito decidir que sua manutenção no cargo era insustentável.
Em outro pronunciamento, dias atrás, o suíço sugeriu que a razão pela qual ele queria permanecer à frente da Fifa era limpar o esporte. Sua decisão de renunciar com a promessa de reforma pode ser uma alternativa para sair pela "porta da frente".
Outra explicação pode estar relacionada à idade. Aos 79 anos, Blatter aparentava cansaço e em nada lembrava a imagem bombástica que gostava de promover sobre si mesmo.
Na medida em que a entidade que ele ajudou a construir parece desmoronar diante dele e com os americanos prometendo novas revelações, Blatter pode ter perdido o gás.

Qual é o futuro da Fifa?

O responsável pelo setor de auditoria e de governança da Fifa, Domenico Scala, prometeu uma reforma de larga escala e disse que "nada está fora de cogitação".
No entanto, na Fifa vontade e realidade não andam juntas. Todas as reformas têm de ser votadas pelos membros da entidade, que vêm se recusando a implantá-las. Mas com duas investigações criminais em curso e pressão dos patrocinadores, talvez essa mentalidade mude.
Uma das principais reformas que Scala propôs é limitar o tempo de mandato do presidente da Fifa. Surpreendentemente, apesar de permanecer à frente da entidade pelos últimos 17 anos, Blatter é apenas o terceiro presidente mais longevo. Scala também afirmou que revelará o salário do presidente, algo que sempre foi mantido sob sigilo.
Outra proposta do executivo é melhorar a verificação da integridade dos representantes regionais do futebol. Sob as regras atuais, as confederações são paradoxalmente responsáveis por essa tarefa, ou seja, auditam a si mesmas.

O que acontecerá com as Copas do Mundo da Rússia e do Catar?

Trabalhadores no Catar | Foto: AFP
Copa no Catar tem cenário incerto; país está sob pressão por causa de alto número de trabalhadores mortos em obras
Os mundiais da Rússia e do Catar são alvos de polêmica por causa do processo de escolha. Uma das questões-chave para o futuro novo presidente da Fifa é o que ele fará com o relatório do promotor americano Michael Garcia sobre como os dois países foram escolhidos.
Garcia foi encarregado pela Fifa para realizar a investigação, mas renunciou depois que a entidade se recusou a divulgar o relatório completo e tornou público apenas um resumo que Garcia chamou de "impreciso".
Analistas sugerem que ainda há uma relativa segurança de que a Rússia manterá sua Copa do Mundo de 2018, já que em menos de dois meses começam as rodadas eliminatórias e há pouco tempo para mudar os preparativos para o Mundial.
Apenas alguns países do mundo têm vigor econômico suficiente para receber um Mundial, entre os quais Alemanha e Reino Unido, e mesmo assim reformas são sempre necessárias.
O Mundial de 2002 no Catar, por outro lado, vive cenário mais incerto. O presidente da FA, a liga inglesa, afirmou que "se eu estivesse no Catar, não estaria muito confiante".
No entanto, o país vem lutando contra qualquer iniciativa de perder o Mundial, incluindo alternativas legais.
Seriam necessárias evidências de corrupção generalizada para tirar a Copa do Catar, embora essa opção não esteja completamente descartada ante a investigação policial em curso.

Quem será o próximo presidente da Fifa?

Isso será definido pela entidade. Embora, no calor do momento, um candidato reformista pareça ser uma opção mais lógica, isso não necessariamente acontecerá.
A imensa maioria dos países votou em Blatter, e muitos colheram bons frutos durante sua presidência. Eles votariam em candidatos que representem uma ruptura?
Mas, com Blatter fora de campo, essa será uma eleição sem precedentes. Sua forte presença e a certeza de sua vitória tiraram candidatos da disputa no passado. Agora, a vaga tende a ser mais cobiçada.
Michel Platini | Foto: Ria Novosti
Presidente da Uefa é forte candidato a suceder Blatter na presidência da entidade máxima do futebol
O francês Michel Platini, presidente da Uefa, que representa o futebol europeu, é considerado um forte candidato à sucessão, mas ele precisará ganhar apoio fora da Europa.
Platini era visto como um sucessor natural de Blatter até os dois romperem, poucos anos atrás. Depois disso, o francês se tornou um dos principais críticos do presidente da Fifa.
Platini era um dos maiores defensores da Copa do Mundo do Catar, cuja escolha parece ter desencadeado o processo que levou à queda de Blatter.
O francês deve esperar não ser envolvido em nenhum dos desdobramentos das investigações sobre esse processo. Caso contrário, tem grandes chances de perder seu favoritismo.
O homem que disputou as eleições de sexta-feira com Blatter, o príncipe jordaniano Ali, também é apontado como possível candidato.
Quem certamente não concorrerá ao cargo é o caimanês Jeffrey Webb - que era visto como sucessor natural de Blatter, mas está agora preso na Suíça esperando a decisão sobre sua extradição aos Estados Unidos.

O escândalo foi positivo?

A Fifa claramente precisa de uma reforma. Não é saudável que uma entidade que controla o futebol mundial seja tão veemente criticada por tantos fãs do esporte. Sendo assim, mudanças têm de ser encaradas como algo positivo.
No entanto, apesar do escândalo de corrupção, não há sinal de que a integridade atual do esporte tenha sido colocada em xeque.
Assim como em escândalos envolvendo o ciclismo e doping de atletas, perder o encanto dos fãs é o que de pior pode acontecer para um esporte.
Pelo menos no futebol, fãs ainda creem que o que ocorre dentro do campo não é alvo de corrupção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário